Resistências à Formalização e Certificação da Cachaça de Alambique: Um Estudo Qualitativo Sobre Manutenção Institucional
Palavras-chave:
institucionalismo contemporâneo, trabalho institucional, informalidadeResumo
Este artigo tem como objetivo compreender, à luz do trabalho institucional de manutenção, como os produtores de cachaça de alambique reagem às iniciativas de formalização, padronização e certificação instituídas nas últimas quatro décadas no Brasil. Através de uma pesquisa qualitativa, foram analisados documentos e realizadas entrevistas semiestruturadas em profundidade com atores no campo da cachaça. Como principais resultados, identificou-se um processo de fortalecimento do arcabouço legal e mercadológico que visa fomentar a padronização e certificação da cachaça de alambique, na busca por melhoria de qualidade e processo produtivo. Contudo, verificou-se a existência de resistências significativas no setor em adotar uma produção que obedeça a tais critérios, em virtude de aspectos históricos que fomentam a informalidade, a qual se apresenta como uma instituição socialmente construída e enraizada no campo. Em resposta às regras de padronização da bebida, os produtores mantêm, em sua maioria, práticas informais, ressignificando a instituição da informalidade à medida que novas normas são desenvolvidas para o campo organizacional. O estudo apresenta três contribuições principais. Teoricamente, amplia a aplicação do trabalho institucional ao explorar um campo empírico pouco estudado, destacando os mecanismos de manutenção da informalidade. Metodologicamente, fortalece-se pela adoção de uma abordagem qualitativa que incorpora múltiplos pontos de vista de atores relevantes do setor. Empiricamente, contribui ao detalhar as barreiras à formalização e ao demonstrar que a informalidade não apenas resiste às pressões institucionais, mas também se configura como uma estratégia de sobrevivência adotada pelos produtores.
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